O edifício da Rodoviária do Lis (1959), da autoria do arquitecto Camilo Korrodi, é um edifício de valor arquitectónico com enquadramento singular na arquitectura moderna em Portugal. O edifício ocupa um quarteirão na zona baixa da cidade, junto ao rio Lis, e integra um conjunto de equipamentos públicos construídos na segunda metade do séc XX. Apesar da proximidade do edifício ao rio, a natureza do programa e o desenho da fachada voltada para a sua margem não tiram partido desta condição excepcional. A sua localização privilegiada na cidade – na sua maior rua comercial – é, hoje, incompatível, com o tráfego pesado intenso que a estação rodoviária implica. Para além do impacto na circulação viária, o acesso automóvel ao edifício impede uma apropriação pedonal das praças contíguas ao edifício. A desocupação do edifício actual gerou uma oportunidade para o religar à cidade e requalificar o seu programa e a sua condição arquitectónica.
A qualidade do edifício e a sua memória viva na cidade impõe a sua preservação, bem como a recuperação de valores perdidos, fruto da descaracterização e degradação evidenciadas. Neste sentido, a intervenção reintegra a sua volumetria, métrica estrutural e sentido compositivo original, assim como o programa comercial no rés-do-chão. A reprogramação habitacional da nave da rodoviária assegura uma apropriação viva, enraizada e ligada ao seu contexto. A fixação de habitantes no centro da cidade, associada a uma oferta comercial e de serviços diversificada, consolida uma proposta assente nos princípios de urbanidade de proximidade. A diversidade tipológica decorre das circunstâncias criadas pelo edifício existente. A ligação ao rio segue o desígnio do projecto “Polis”, de interligação das margens do rio Lis ao espaço público da cidade. Propõe-se uma reabertura à cidade e ao rio, levando mais longe as intenções de Korrodi.

